sábado, 1 de setembro de 2012

ARTE E PSICANÁLISE



A interpretação psicanalítica da obra de arte apesar de ser valiosa possui uma limitação pelo fato de não dispor do método da associação livre como um de seus recursos, estando também alheia ao ambiente transferencial. Por isto, Freud interpreta a obra de arte singularmente e todos os seus ensaios sobre obras de arte possuem um alcance muito limitado.
No ensaio Moisés e Michelangelo, Freud assegura o paralelo entre o trabalho do sonho e o trabalho da criação artística. Destarte, Freud superpõe a interpretação do sonho e a interpretação da obra de arte. Com efeito, o sonho é fugaz, enquanto a obra de arte entra na cultura e nela permanece. E longe de elaborar uma teoria geral da arte, Freud realiza um trabalho minucioso e paciente da obra que está diante de si com todas as suas particularidades – a escultura de Moisés feita por Michelangelo.
No tocante ao ensaio sobre Leonardo da Vinci, Freud procura tratar do fundamento pulsional que sustenta a obra. Todavia, não sendo possível o acesso às pulsões, mas unicamente às suas expressões psíquicas, a análise de Leonardo não deve ser absolutizada, mas considerada uma especulação mais ou menos plausível[1]. Não obstante Freud admitir que a psicanálise não tenha recursos suficientes para falar sobre o valor da criação artística, quando ele fala de Leonardo procura analisar a função que a sua fantasia original teve em seu trabalho artístico, a saber, a relação com as duas mães que aparecem em seus quadros, tanto no do Louvre quanto no desenho de Londres, com um corpo duplo e uma mistura de pernas. Destarte, Leonardo pode ter imaginado que aconteceu com sua mãe o mesmo que com a Virgem Maria, que também teve um filho sem pai, e, portanto, sem a relação sexual e sem a castração[2].
 Freud, também, elabora um paralelo entre o poeta e a criança, pois ambos criam um mundo imaginário o qual é levado a sério: investem uma carga afetiva significativa em sua produção ao mesmo tempo distinguindo-a da realidade. Segundo Freud, sonho e poesia são produtos da mesma insatisfação humana. Com efeito, a obra de arte tem o objetivo de permitir que as pessoas gozem de suas fantasias sexuais sem qualquer censura por parte do superego.  A obra artística em geral representa, portanto, um prazer que descarrega desejos inconscientes profundos. Destarte, a teoria psicanalítica enxerga nas artes o produto psíquico das representações pulsionais que se tornam manifestação cultural, o que leva Freud a considerar a arte como uma cura e não como um sintoma.  Dessa maneira a arte é uma forma não-obsessiva e não-neurótica de satisfação dos desejos humanos e a eficácia de sua criação estética reside no fato de ser uma produção desvinculada do retorno do recalcado.
Com efeito, a obra artística não é uma mera projeção dos conflitos inconscientes presentes no artista, mas é um poderoso esboço de solução e nos ajuda a compreender o tema da sublimação. O termo sublimação evoca o campo das belas artes ou da química   e possui para Freud um valor positivo por ser a via menos infeliz para  o conflito cultural da  sociedade. A sublimação pode ser definida brevemente como a faculdade de liberar energias que estavam investidas em figuras arcaicas para serem investidas em novos objetos. Com efeito, a sublimação de uma pulsão implica que esta possa se satisfazer com os objetos de substituição, isto é, obter uma satisfação imaginária ou simbólica igualando-se a uma satisfação real. O ato de sublimar tem como resultado que a energia libidinal seja desviada de suas metas sexuais e investida em realizações culturais ou realizações individuais úteis a sociedade[3].
A sublimação, portanto, transforma a energia sexual em energia psíquica de um tipo superior. Uma tendência humana qualquer se torna muito intensificada quando incorpora, como o intuito de se fortificar, impulsos libidinais, como um pequeno riacho pode ser engrossado de maneira extraordinária pelas águas de um rio caudaloso.  Através da sublimação pode acontecer de algum artista se dedicar a sua obra com o mesmo entusiasmo apaixonado com que outras pessoas se dedicam aos seus amantes, pois, com efeito, o trabalho artístico pode representar para o artista o que o amor ou a paixão representa para as outras pessoas. A sublimação, portanto, é a capacidade que as pulsões sexuais têm de renunciar ao seu objeto imediato em troca de outros objetivos não sexuais e mais apreciados pela sociedade[4].





REFERÊNCIAS


BRABANT, Georges Philippe. Chaves da Psicanálise. Zahar Editores. Rio de Janeiro: 1971.

ESTEVAM, Carlos. Freud: vida e obra. José Álvaro Editor. Rio de Janeiro: 1968.

FRANCO, Sergio de Gouvêa. Hermenêutica e psicanálise na obra de Paul Ricoeur.Edições Loyola. São Paulo: 1995.

SIQUEIRA, Beatriz Elisa Ferro. Leonardo Da Vinci: fantasma, arte e sublimação.  Revista Psicanálise & Barroco Ano 3 número 5.


[1] FRANCO, Sergio de Gouvêa. Hermenêutica e psicanálise na obra de Paul Ricoeur. P. 127.
[2] SIQUEIRA, Beatriz Elisa Ferro. Leonardo Da Vinc: fantasma, arte e sublimação. P.2.
[3] BRABANT, Georges Philippe. Chaves da Psicanálise. P. 55.
[4] ESTEVAM, Carlos. Freud: vida e obra. P. 31.

sábado, 4 de agosto de 2012

O CONCEITO DE SUBLIMAÇÃO EM PSICANÁLISE


Para a compreensão do sujeito da psicanálise em sua relação com o social, enfatizando as consequências dessa concepção para a prática psicanalítica, o conceito freudiano de sublimação torna-se essencial.  Na literatura psicanalítica, a sublimação é frequentemente considerada como um mecanismo ou um modo de defesa contra as pulsões. Todavia, é importante salientar que a defesa não se situa no nível da sublimação, mas antes em um recalque que a precede, sem a qual, a sublimação não poderia existir. Sigmund Freud sistematiza para as pulsões três destinos: recalque, inversão da pulsão em seu contrário, volta contra a própria pessoa e a sublimação[1]. O recalque é o mecanismo típico das neuroses, o qual neutraliza o acesso à consciência de ideias que causam desprazer. A inversão e a volta contra si são os mecanismos que entram em jogo no sado-masoquismo e no voyeurismo-exibicionismo. E a sublimação é o processo através do qual a libido se afasta do objeto sexual para outra espécie de satisfação. A sublimação, portanto, é um processo relativo à própria pulsão e não um engrandecimento do objeto, como idealização. Com efeito, a sublimação propicia a possibilidade de atingir certo grau de satisfação sexual a despeito da defesa e pode ser considerada, grosso modo, como um alívio da pulsão.
A sublimação de uma pulsão implica que esta possa se satisfazer com os objetos de substituição e também que uma satisfação imaginária ou simbólica possa se igualar com uma satisfação real. O resultado da sublimação é o desvio da energia libidinal de suas metas originais e investida em realizações culturais, ou em realizações individuais úteis ao grupo social. A sublimação é um meio de reconciliar as exigências sexuais com as da cultura, por conseguinte, reconciliá-las com a sociedade, ou reconciliar a sociedade com elas. E apesar de a maioria dos indivíduos não possuírem igual aptidão para a sublimação, pois, é uma solução restrita a poucos, tal destino pulsional propicia uma solução menos infeliz para o conflito cultural da sexualidade [2].
A sublimação, segundo Freud, é um mecanismo de defesa eminentemente positivo para a sociedade, constituindo um bem social. Pois, pode-se dizer que a maior parte das grandes personalidades e dos grandes feitos ocorridos na história humana só foram possíveis graças à sublimação. Com efeito, os grandes artistas, os eminentes cientistas, os mais importantes líderes políticos, e todas as personalidades que conseguiram se elevar acima da média eram indivíduos cujos instintos não se manifestaram tal como eram, ao invés disso, sublimaram os instintos egoístas e transformaram estas forças em realizações sociais de grande valor, a exemplo das realizações artísticas[3].
Com efeito, as realizações artísticas, segundo Freud, não são uma simples projeção do artista, mas configura-se um esboço de solução dos conflitos psíquicos. Desta forma, as obras de arte ajudam a compreensão do conceito psicanalítico da sublimação: a capacidade de liberar energias que estavam investidas em figuras arcaicas para serem investidas em novas figuras. Mediante a sublimação, portanto, o desejo é transformado em ideal sublime.
Em química a sublimação é entendida como o processo de transformação da matéria do estado sólido para o estado gasoso. No que tange à moral o conceito está associado à purificação e à perfeição.  Todavia, em psicanalise esta noção descreve as atividades humanas que não estão relacionadas aparentemente à sexualidade, mas cuja origem só é possível a partir da pulsão sexual. Neste sentido, a sublimação reporta-se a uma mudança nos objetivos da pulsão, que abandonaria seus objetos originais de natureza sexual, para se conectar a outras metas, as quais são socialmente apreciadas, como a arte, o esporte, a ciência, a religião, etc. Escreve Carlos Estevam a respeito[4]:

Essa tese foi exposta por Freud nos seguintes termos: Uma tendência humana se apresenta muito intensificada, quando incorporou a si, a fim de se fortificar, forças sexuais instintivas, da mesma forma que um pequeno riacho pode ser engrossado extraordinariamente pelas águas de um rio caudaloso. Pode assim acontecer que um homem se dedique ao seu trabalho com o mesmo entusiasmo apaixonado com que outras pessoas se dedicam aos seus amores, pois o trabalho pode representar para ele o que o amor representa para os outros, ou seja, um modo de dar expansão ao seu instinto sexual. A sublimação é essa capacidade que tem o instinto sexual de renunciar ao seu objetivo imediato em troca de outros objetivos não sexuais e mais apreciados pela sociedade.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRABANT, Georges Philippe. Chaves da psicanálise. Zahar Editores. Rio de Janeiro:1973.
ESTEVAM, Carlos. Freud. José Alvaro Editor. Rio de Janeiro: 1968.
FRANCO, Sergio de Gouvêa. Hermenêutica e psicanálise na obra de Paul Ricoeur. Edições Loyola. São Paulo:1995.
 



[1] FRANCO, Sergio de Gouvêa. Hermenêutica e psicanálise na obra de Paul Ricoeur. P. 121.
[2] BRABANT, Georges Philippe. Chaves da psicanálise. Págs. 54 e 55.
[3] ESTEVAM, Carlos. Freud. Págs. 28 e 29.
[4] Ibid., p.31.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Alfred Adler e o complexo de inferioridade



No ano de 1902, Sigmund Freud criou a chamada Sociedade psicológica das quartas-feiras à qual foram chegando, aos poucos, médicos e intelectuais judeus. Estes, por sua vez, se reuniam informalmente na sala de espera do consultório de Freud: Rudolf Reitler, Otto Hank, Alfred Adler etc., os quais estavam ligados ao que viria a ser conhecido como o “movimento psicanalítico”. Com efeito, é sobre a dissidência efetivada por um de seus integrantes, a saber, Alfred Adler, que pretendo me ater.
Adler foi o primeiro discípulo de Freud a se separar do grupo psicanalítico em 1911. Todavia, as ideias de Adler não tiveram na França uma grande importância, não obstante as noções de complexo de inferioridade e de protesto viril as quais tornarem-se muito famosas sem que seja lembrado que foi Adler o pai destes conceitos.
Adler fundamenta-se na observação segundo a qual uma inferioridade orgânica é compensada, seja pela utilização de outro órgão, seja por um esforço particular imposto ao órgão deficiente. É possível reportar-se a Demóstenes, como exemplo, o qual, apesar de ser gago, tornou-se um grande orador. A inferioridade orgânica também suscita reações psíquicas sob a forma de fantasias compensatórias. Num outro momento, Adler amplia a noção de inferioridade, assegurando que o sentimento de inferioridade existe em todas as pessoas e que possui sua fonte na infância no momento em que o indivíduo se sente pequeno e fraco diante do adulto, sentimento este favorecido pela atitude minimizante dos pais:
O ser humano apresenta esta característica essencial: é a entidade mais frágil do reino animal, quando nasce; a mais delicada, a menos apta para a sobrevivência. Um potrinho, assim que se desembaraça da placenta, já pode dar alguns saltos desajeitados; para um gatinho, são necessários apenas alguns dias para que abra os olhos e são necessárias apenas alguma semanas para  que o pequeno pássaro possa voar só. O recém-nascido humano vem ao mundo num estado de insuficiência que lhe seria catastrófico se não tivesse uma família para olhar por ele... Assim, a criança que toma, pouco a pouco, ao longe de todos esses anos de sua formação, consciência de si mesma, considera-se a princípio como algo inferior, menor (VALINIEFF, 1971 págs.106 e 107).


 Segundo Adler o sentimento de inferioridade faz nascer um desejo compensatório de superioridade, de dominação e de poder que pode conduzir a alguma forma de sucesso pessoal, ou traduzir-se em desejos irrealistas e na busca de objetivos irrealizáveis que caracterizam a neurose. Se a criança sentir grande dificuldade de impor ao mundo exterior seu verdadeiro ego, seu desejo natural de poder transformar-se-á em obsessão. Isto se observa nos casos de compensação. O desejo de superioridade, então, torna-se doentio.
O domínio e o poder, estando nas mãos dos homens em nossa civilização, e a inferioridade do lado da mulher, o desejo de poder em um e outro sexo equivalem a um esforço para alcançar uma posição idealmente masculina. Alfred Adler denomina este esforço de protesto viril que existe, sobretudo nas mulheres, mas que se encontra em todos os indivíduos que, sentindo-se numa posição inferior, se esforça para sair dela:
Mas, de uma pequenez a criança tomará uma força: é um desejo quase imediato de afirmar-se em relação ao mundo. O fim de toda a existência humana está, pois, comandado por uma “sede de poder” destinada a procurar a superioridade sobre o meio ambiente ( VALINIEFF,1972,P.108).
Para Adler é a vontade de poder que é a força motora de toda ação humana, e não a sexualidade, e é esta mesma vontade de poder que é a causa das neuroses, pois, o próprio ato sexual para  ser motivado, não nasce da excitação sexual mas de uma procura de superioridade sobre o parceiro. O complexo de Édipo não é questionado por Adler, todavia, é reinterpretada consoante a perspectiva da vontade de poder. A criança visa submeter-se à mãe e subtrair-se à dominação do pai, para por sua vez dominá-lo. No decorrer da adolescência e na idade adulta do complexo de Édipo constitui um refugio para o indivíduo, pois o tal se fixa a essa situação para evitar confrontos mais difíceis.
Os diferentes conceitos expostos até aqui, conduzem a uma atitude e a um método terapêutico distintos daqueles observados na psicanálise freudiana. A busca das causas iniciais da neurose é abandonada, a qual se define por uma busca de metas inadaptadas e é na correção dessas metas que reside ação terapêutica. Portanto, o foco é na ação educativa e reeducativa, a qual não procura entrar nas profundezas do inconsciente e pretende ser de curta duração. Alfred Adler deu à sua própria teoria o nome de psicologia individual.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRABANT, Georges Philippe. Chaves da Psicanálise. Zahar editores. Rio de Janeiro: 1972.

MEZAN, Renato. Freud. Brasiliense. São Paulo: 1983.

VALINIEFF, Pierre. Psicanálise e complexos. Edições MM. Rio de Janeiro: 1972.




terça-feira, 29 de maio de 2012

As quatro estruturas da psicopatologia


As chamadas psicopatologias, no contexto da teoria psicanalítica Freudiana, podem ser divididas em quatro estruturas, a saber, a neurose obsessiva, a histeria, a perversão e a psicose.
A neurose por ser brevemente definida como uma desordem mental, consciente pelo sujeito, desordem esta que não atinge as funções essenciais da personalidade, ou ainda, doença nervosa sem causa somática, mas psíquica, não tendo o poder de transformar a personalidade do sujeito[1]. “Com efeito, o que quer dizer as palavras “consciente” e “não tendo o poder de transformar a personalidade do sujeito” no registro da neurose?
Os neuróticos caracterizam-se pelo sofrimento que sua psicopatologia lhes inflige, sendo este sofrimento a causa mesma da deliberação do sujeito no sentido de procurar um analista na esperança de uma cura. A patologia neurótica não impede o sujeito de possuir uma vida social mais ou menos saudável, e ele mesmo está cônscio de seu sofrimento. O neurótico obsessivo embora não consiga por conta própria se libertar de seus medos, sabe que no fundo são absurdos. Todas as pessoas psiquicamente normais sentem medo diante do perigo, diferentemente, o neurótico é afligido por um medo mórbido, doentio e sem qualquer fundamento[2]. Segundo Freud, a causa da neurose reside na ideia de conflito interno entre duas forças opostas que constituem o nosso psiquismo[3]. Ao afirmar que os neuróticos sofrem de reminiscências, Freud confere a uma experiência passada a causa da neurose, pelo conflito, existente entre um desejo, ligado às pulsões e ao ID, e o dever moral, que emana do Superego, gerando, por conseguinte, o sentimento de culpa. E como as pulsões precisam ser necessariamente descarregadas acabam por gerar um sintoma neurótico.
A histeria, não obstante ser distinta da neurose obsessiva, apontada precedentemente, também é classificada como uma neurose, com o seguinte distintivo: o sintoma histérico é conversivo, isto é, o sintoma se manifesta no corpo do sujeito na forma de paralisias, coceiras, cegueira, etc. A título de exemplo, pode-se mencionar a paciente de Freud chamada Dora, que apresentava entre outros sintomas uma tosse nervosa. O sintoma desapareceu quando Dora reconheceu, pelo método psicanalítico que a irritação da garganta ligava-se a um desejo inconsciente de sucção da vara pela qual ela se identificava à amante de seu pai[4].
As perversões caracterizam-se pelo retorno às atividades, gostos e escolhas característicos de uma etapa anterior do desenvolvimento libidinal; retorno este chamado em psicanálise de regressão. No pervertido o desejo edipiano não deixou de existir e a angústia de castração que a ela está intimamente ligada subsiste em toda a sua intensidade. O prazer do pervertido não pode ser obtido pela simples aproximação das partes sexuais de um homem e de uma mulher, porém, utiliza outros meios e outras vias corporais, por exemplo, o órgão genital do mesmo sexo, via oral ou anal, ou prover aproximação heterossexual normal de condições sem as quais ela não traria para ele realização satisfatória[5]. As perversões manifestam-se, na relação sadismo/masoquismo, voyeurismo/ exibicionismo, no fetichismo e no homossexualismo.
No tocante à psicose, convém compará-la com a neurose para uma melhor compreensão. Conforme visto anteriormente, o neurótico sabe que seus medos e fantasias são absurdos. Ao contrário, um sujeito que sofre de psicose acredita que suas próprias representações fantasiosas são reais. O psicótico não consegue ver o absurdo, por exemplo, da afirmação de ser Napoleão ou Jesus Cristo, pois o psicótico fica estranho à realidade, isto é, torna-se um alienado. A psicose impede que o doente compare o que ele imagina como o que acontece na realidade. Portanto, o psicótico perde totalmente a noção de seu estado[6]. Esta perda de consciência implica na impossibilidade da cura da psicose através do método psicanalítico. Pois como vimos, o neurótico busca ajuda psicanalítica porque sofre, e através da associação livre, auxiliado pelo psicanalista, alcança a cura de sua neurose simplesmente ao conhecer a causa geradora do sintoma. No entanto, isto não é possível em relação aos psicóticos para quem suas fantasias e representações, são a pura realidade. Quanto aos pervertidos são dificilmente tratáveis pelo método da psicanálise, pois estão tão ligados aos seus objetos de prazer, os quais são assumidos muitas vezes publicamente, que se tornam impedidos de buscarem na clínica o fim de sua patologia[7].

BIBLIOGRAFIA

BRABANT, Georges Philippe. Chaves da Psicanálise. Zahar Editores. Rio de Janeiro: 1973.

ESTEVAM, Carlos. Freud: vida e obra. José Álvaro Editor. Rio de Janeiro: 1968.

VALINIEFF, Pierre. Psicanálise e complexos. Edições MM. Rio de Janeiro: 1971.

SANTOS, Adelson Bruno dos Reis / Ceccareli, Paulo Roberto. Perversão sexual, ética e clínica psicanalítica. Revista Latinoam. Psicopat. Fund. Vol.12, n.2. São Paulo: 2002.



[1] Pierre Valinieff. Psicanálise e complexos. P.121.
[2] Carlos Estevam. Freud: vida e obra. P.108
[3] Ibid., p.112.
[4] Georges Philippe Brabant. Chaves da psicanálise. P. 96.
[5] Ibid., págs. 91-92.
[6] Carlos Estevam. Freud: vida e obra. P.108.
[7] Adelson Bruno dos Reis Santos/Paulo Roberto Ceccareli. Perversão sexual, ética e clínica psicanalítica. P. 223.